Wilde,
Estou perdida.
Febre. Quem é essa mulher? Disseram-me ser ela digna do panteão das medéias. Daquelas que matam por amor, das que caminham na trilha da obssessão. Disseram-me ser ela fatal, bandida, indigna, impura. A perdição do mundo, a causadora dos males. Não a vejo. Só enxergo o desejo da primeira vez. Ela se apaixonou à primeira vista? Não. Foi ao primeiro som. Primeiro veio a voz. Depois o corpo de João. Jokanaan. Posso ver sair daquela boca esse nome. Com os lábios molhados e os olhos enfeitiçados. "Jokanaan". O homem santo. O homem que a ela não poderia pertencer. Estava ele imune? Aquela mulher tinha poder sobre todos. Por ela, homens matavam-se. Estava ele imune àquele poder? Se era imune, por que ela não podia olhar pra ele? Por que, Jokanaan? Ela te perturbou? Por que ela não podia se aproximar? Consigo sentir sua respiração se alterar, Jokanaan. A veia de teu pescoço salta, a temperatura se eleva. Havia uma Deusa diante de você, não havia?
Fere. Que luta é essa entre o dever e o desejo? Entre a santidade e a carne? De onde vem esse desespero pelo que é proibido? Por que querer aquilo que não se pode ter? De que matéria fomos feitos, afinal? A quem você odiava, Wilde? Quem te fez tanto mal assim? Por quem você iria até as últimas conseqüências? Sinto um ódio dilacerante no seu texto. Sinto a vingança escorrendo de cada página. Vejo lágrimas de sangue saírem de seus olhos. Vejo o vestido de casamento envenenado. Vejo fogo, Wilde. Vejo fogo.
Ferve. Em que quimera me envolvi? Eu mulher, eu desejo, eu sacerdotisa de muitas deidades. Vejo as mãos de Salomé dançando ao som de tempestades. Há em cada pedaço de sua pele a vibração telúrica de muitas eras. Mas há em seus olhos a tristeza de muitos invernos. Quem é essa mulher? Por que ela existe, o que ela quer? Por que se entrega, se deixa arrastar, se vende por um beijo? Por um beijo, Salomé. Dançaste a maior das danças, por um beijo. O beijo dos mortos, o beijo da perdição. "O instante mais vivo de todos", uma voz me sussurra. "O instante que paga toda a vida". Vale a pena, eu pergunto. Pagar com a morte? Por que o pagamento do desejo sempre é a morte? De que tamanho é o seu coração, mulher? Princesa obstinada de pés descalços e lábios vermelhos. Amante da cobiça, mãe da perdição. Sim, eu sei quem você é.
Por que desejar é sempre se perder? Wilde, eu sei quem sou. Wilde, estou perdida!
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