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Fotos da Corte – 2a Temporada

Como não poderia deixar de ser, a segunda temporada de Salomé, de Oscar Wilde foi deliciosamente emocionante e intensa. Como sempre, nos divertimos muito no processo. Uma de nossas atrizes debutantes, Taiane Assis, resolveu levar sua digital e registrar os bastidores. O resultado desta aventura fotográfica pode ser conferido abaixo.

Pra quem quiser ir direto ao álbum, basta clicar aqui.

The feeling begins

dança pra mim, Salomé!

Estudava na Escola de Teatro da UFBA. Estava no penúltimo semestre. Queria aprofundar o discurso sobre as inquietações que me tomavam. Acima de tudo essas inquietações falavam sobre os conflitos que nos rodeiam entre o que devemos e o que desejamos. Procurei muito um texto que me aprouvesse para que o palco abrigasse essa batalha. Demorou pra chegar. Meu professor de dramaturgia, Marcos Barbosa, com toda a sofisticada simplicidade que só os gênios possuem, me instigou a ler Salomé, ou Desejo de Salomé, do literata inglês Oscar Wilde. Novamente demorei. Fixada em Nelson Rodrigues e em sua inquisição as avessas. Primeiro Os Sete Gatinhos. Muito grande, muita gente, muitos lugares. A energia se dissiparia. Então, A Serpente, o menor e último texto escrito por Nelson. Caiu como uma luva. Cinco atores, um ambiente, que viria a reduzir ainda mais, para apenas uma cama. Não, não apenas. Uma cama pode ser um universo. Como o foi. Então, já apaixonada por cobras, árvores e irmãs, me permiti dar um pulinho na princesa da judéia e em sua perdição pelo primo de Jesus. Li. Cadê respiração? Descortinada na minha frente estava uma das histórias mais dolorosamente intensas que já tive notícia. E mais, havia vingança em cada página, em cada linha. Havia ali o autor, que falou comigo. Pedi tempo. Precisava me dedicar à minha pré-formatura. A Sala do Coro do TCA, e um violoncelo em cena, me aguardavam. Mas eu já pertencia a Oscar Wilde. Era só uma questão de movimento do mundo. Ou da lua.

A imagem em questão foi a primeira que habitou meu notebook. A princesa começava a dançar pra mim.

Por que eu fiz um juramento

Foto Léo Azevedo Nasceu. Eu nunca duvidei, apesar de todas as lanças apontadas para o meu pescoço. Eu nunca duvidei, nem por um segundo, e isso para mim também é uma primeira vez. Tão obstinada quanto eles, eu diria. Jamais me vi assim, tão apaixonada, tão demasiadamente apaixonada. Até pelos erros, pelos conflitos, pelas tempestades.

Publicado originalmente no fim da primeira temporada, no blog Caleidoscópio do Éden em 30.7.2008

 

Foto: Léo Azevedo

Agradecimentos

Ao tempo, a Oscar Wilde, a todas as mariposas, a todas as paixões, amores, amizades, intempéries, assim como a todos os Deuses e Deusas da Arte e da Vida.

Metal e Seda

Metal e seda. Oriente e heavy metal. Sonho e sangue. Sagrado e profano. Desejo e espírito. O contraste, o embate, a essência barroca do ser humano. Salomé é a mulher que envenena os homens com sua beleza. Jokanaan é o homem santo. O desejo a devora na mesma proporção em que a fé o sustenta. Não há vencedores. Jokanaan paga com a morte a firmeza de sua crença. Salomé não pode ter um homem morto. Se a busca é pela recompensa, então só resta ser o que se é. Ser fiel a si mesmo até as últimas conseqüências, e a morte chegará. Certa. Sedenta.

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Este texto é a síntese de toda a minha concepção de Salomé, de Oscar Wilde.

Primeiros Desatinos

Caravaggio, St. John the Baptist

Wilde,

Estou perdida.

Febre. Quem é essa mulher? Disseram-me ser ela digna do panteão das medéias. Daquelas que matam por amor, das que caminham na trilha da obssessão. Disseram-me ser ela fatal, bandida, indigna, impura. A perdição do mundo, a causadora dos males. Não a vejo. Só enxergo o desejo da primeira vez. Ela se apaixonou à primeira vista? Não. Foi ao primeiro som. Primeiro veio a voz. Depois o corpo de João. Jokanaan. Posso ver sair daquela boca esse nome. Com os lábios molhados e os olhos enfeitiçados. "Jokanaan". O homem santo. O homem que a ela não poderia pertencer. Estava ele imune? Aquela mulher tinha poder sobre todos. Por ela, homens matavam-se. Estava ele imune àquele poder? Se era imune, por que ela não podia olhar pra ele? Por que, Jokanaan? Ela te perturbou? Por que ela não podia se aproximar? Consigo sentir sua respiração se alterar, Jokanaan. A veia de teu pescoço salta, a temperatura se eleva. Havia uma Deusa diante de você, não havia?

Fere. Que luta é essa entre o dever e o desejo? Entre a santidade e a carne? De onde vem esse desespero pelo que é proibido? Por que querer aquilo que não se pode ter? De que matéria fomos feitos, afinal? A quem você odiava, Wilde? Quem te fez tanto mal assim? Por quem você iria até as últimas conseqüências? Sinto um ódio dilacerante no seu texto. Sinto a vingança escorrendo de cada página. Vejo lágrimas de sangue saírem de seus olhos. Vejo o vestido de casamento envenenado. Vejo fogo, Wilde. Vejo fogo.

Ferve. Em que quimera me envolvi? Eu mulher, eu desejo, eu sacerdotisa de muitas deidades. Vejo as mãos de Salomé dançando ao som de tempestades. Há em cada pedaço de sua pele a vibração telúrica de muitas eras. Mas há em seus olhos a tristeza de muitos invernos. Quem é essa mulher? Por que ela existe, o que ela quer? Por que se entrega, se deixa arrastar, se vende por um beijo? Por um beijo, Salomé. Dançaste a maior das danças, por um beijo. O beijo dos mortos, o beijo da perdição. "O instante mais vivo de todos", uma voz me sussurra. "O instante que paga toda a vida". Vale a pena, eu pergunto. Pagar com a morte? Por que o pagamento do desejo sempre é a morte? De que tamanho é o seu coração, mulher? Princesa obstinada de pés descalços e lábios vermelhos. Amante da cobiça, mãe da perdição. Sim, eu sei quem você é.

Por que desejar é sempre se perder? Wilde, eu sei quem sou. Wilde, estou perdida!